O panavueiro das renúncias, filiações e a malhação de Judas

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O panavueiro das renúncias, filiações e a malhação de Judas

Por Marcos Santos

O prazo final de desincompatibilização e filiação partidária caiu exatamente no Sábado da Aleluia, o tradicional Dia da Malhação de Judas, e a coincidência não poderia ser mais simbólica. Enquanto o calendário religioso lembrava a punição do traidor, a política amazonense assistia a uma sequência de movimentos inesperados, acordos rompidos e decisões tomadas no limite do prazo. A síntese é de surpresa geral. Wilson Lima e Tadeu de Souza renunciaram, alterando completamente o cenário. Roberto Cidade, presidente da Assembleia Legislativa, assumiu provisoriamente o governo e terá que conduzir uma eleição indireta em até 30 dias. Tudo indica que a decisão ficou restrita a um grupo muito pequeno, o que explica o impacto causado. Os bastidores nunca estiveram tão agitados. E o que vem pela frente promete ainda mais tensão, articulação e reviravoltas. É o panavueiro em estado puro e apenas no começo.

Renúncia e candidaturas

O panavueiro das renúncias de Wilson Lima e Tadeu de Souza ocorreu no limite do prazo (23h30), num movimento guardado a sete chaves e restrito a pouquíssimos, surpreendendo até aliados próximos e mostrando que, na política, o silêncio muitas vezes fala mais alto do que qualquer declaração pública. Roberto concorre a governador, Wilson ao Senado e Tadeu a deputado federal.

Pressão de Rueda

Wilson chegou a garantir que permaneceria no cargo, em reuniões com secretários, mas a visita do presidente do União Brasil, Antonio Rueda, mudou completamente o cenário, trazendo pressão e garantias que acabaram empurrando a decisão para a renúncia. A participação do presidente mostra como, no Brasil de hoje, uma cadeira de senador vale muito.

 

Interino

Roberto Cidade assume o governo de forma provisória e protagoniza ascensão rara, saindo do baixo clero para o comando do Estado, agora com a caneta na mão, mas também com o peso de decisões que serão observadas com lupa.

 

Eleição indireta

A eleição indireta precisa ocorrer em até 30 dias e coloca a Assembleia Legislativa no centro do poder, com cada deputado transformado em peça decisiva, num ambiente de forte tensão e articulação permanente.

 

Dissidência

Cidade enfrenta um cenário fragmentado, com deputados distribuídos em partidos que orbitam diferentes polos políticos, o que exige habilidade para manter uma base coesa em meio a interesses divergentes: Rozenha, Mayra Dias, Wilker Barreto e Alessandra Campelo estão no PSD. Thiago Abrahim e Cristiano D’Angelo foram para o MDB. Débora Menezes, Delegado Péricles e Cabo Maciel estão no PL. Daniel Almeida e Abdala Fraxe são do Avante. E Sinézio Campos, do PT, “arco de influência” do senador Omar Aziz.

 

Doze

A conta inicial aponta para cerca de 12 votos possíveis, mas, em eleição indireta, promessa não é garantia e a matemática da política costuma ser mais instável do que parece. O mais provável é que dê a lógica: Cidade exercerá a mão de ferro com que domina o Legislativo e se elegerá facilmente governador.

 

História

O passado da política amazonense mostra que eleição indireta sempre guarda surpresas, com episódios de viradas improváveis, votos inesperados e decisões que mudaram completamente o rumo dos acontecimentos. Luiz Alberto Carijó de Gosztonyi, presidente da Câmara de Manaus botou no bolso o prefeito Alfredo Nascimento, que renunciou para ser ministro dos Transportes. E virou prefeito. Gilberto indicou Amazonino prefeito, em 1983, sujeito à confirmação de uma Assembleia aliada do Boto. Um voto em branco, no entanto, deixou tudo empatado e obrigou a presidente Beth Azize ao Voto de Minerva, contestado até hoje. Amazonino podia ter encerrado ali a virada de empresário para a política.

 

Empate

A Constituição estabelece que, em caso de empate, vence o candidato mais velho, um detalhe aparentemente simples, mas que pode ter peso decisivo em um cenário de disputa apertada.

 

Oposição

Do outro lado, a oposição precisa se organizar, romper vínculos ainda existentes com o grupo anterior, escolher um nome competitivo e manter unidade absoluta, o que, na prática, é uma tarefa extremamente difícil.

 

Correria

O deputado federal Fausto Jr. retornou às pressas a Manaus para entender o novo cenário, já que a saída de Roberto Cidade da chapa da União Progressista mexe nas contas para alcançar o quociente eleitoral.

 

Alessandra Campelo

Alessandra Campelo tornou-se uma incógnita, dividida entre a filiação ao PSD e o anúncio como vice de Omar Aziz, levantando questionamentos sobre seu posicionamento final dentro desse novo arranjo político. Ela era, sem meias palavras, parte de um acordo prévio entre Omar e Wilson. Isso desmoronou. A deputada, afinal, era vice-líder do governador na Aleam.

 

Lista

A disputa pelo Senado se ampliou e ficou ainda mais pulverizada, com a entrada de Wilson Lima em um cenário já cheio de nomes, tornando a eleição aberta e imprevisível. Veja os candidatos: Eduardo Braga (MDB), Alberto Neto (PL), Marcos Rotta (Avante), Delegado Costa e Silva (PL), Plínio Valério (PSDB), Ismael Munduruku (Rede), Adriel Kokama (Democracia Cristã), Delegado Rodrigo Sá (União), Marcelo Ramos (PT), Chris Melchior (PSD) e, agora, Wilson Lima (União). Cabo Daciolo concorrerá à presidência e Abel Alves ainda não foi confirmado pelo Psol.

 

Improviso

O que se viu foi um verdadeiro improviso programado, com decisões estudadas, mas executadas de forma surpreendente, deixando espaço para novas alianças e até fusões de candidaturas. Não se admite se dois candidatos ao governo se juntarem. O improvável passou a ser viável.

 

Reviravolta nos trinta

A renúncia de Tadeu de Souza aconteceu a apenas 30 minutos do prazo final, como uma jogada calculada até o último segundo, típica de quem segura a carta decisiva para o momento exato. Tadeu, pré-candidato a governador, sempre disse que “jamais renunciaria” à honra de governar o Estado. Não deu.

 

Panavueiro final

No fim, o cenário é de completa ebulição, com mudanças rápidas, alianças frágeis e um ambiente onde nada é definitivo, confirmando que o panavueiro político está apenas começando. Novo prazo? 15 de agosto. É o limite para as chapas chegarem, fechadinhas, à Justiça Eleitoral. Até lá, as conversas continuarão ocorrendo. O sábado da Malhação de Judas passou, mas as reviravoltas, pelo visto, só começaram.

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