BAÚ de GIBIS >Os TRAPALHÕES:do politicamente INCORRETO à inocência infantil

0
112

Os TRAPALHÕES:do politicamente INCORRETO à inocência infantil

Por – Marcus Ramone

“ISTO AQUI É UMA MERDA!”, GRITOU ELY BARBOSA,jogando um exemplar do gibi Os Trapalhões na mesa do editor Edmundo Rodrigues, em 1979. A versão em quadrinhos do quarteto de humoristas chegara pela Bloch Editores na esteira do sucesso de seu programa, exibido desde o ano anterior na Rede Globo, depois de passagens pelas emissoras Record e Tupi.Também se esperava um prazo de validade para a publicação, da mesma forma que, antes e depois, outras personalidades da televisão brasileira viriam acontecer rapidamente com os gibis que protagonizaram.

Essa previsão teria se confirmado se Ely Barbosa não houvesse dito o que pensava sobre o conteúdo da publicação. O estúdio do desenhista assumiria a criação das histórias de Os Trapalhões, que anos antes, em 1976, havia estreado nas bancas, com desenhos de Mário Lima. Mas a direção editorial não agradava ao artista.

A liberdade criativa acabava tolhida pelo estilo de fidelidade rígida ao humor apresentado no programa de TV, que impunha ao argumentista e ao desenhista do gibi os esquetes longos e outros elementos que funcionavam melhor na tela pequena, bem como um visual quase realista (ou menos caricato do que deveria ser) dos personagens. No início, as capas não traziam ilustrações e se valiam de fotos posadas com Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.

No primeiro ano, por causa das limitações de produção de novas aventuras, a revista chegou a dividir mensalmente suas 68 páginas com histórias do Gato Félix – cujo gibi da mesma editora acabara de ser cancelado –, de Buck Zé e da dupla de bichanos Leco e Beto – vindos da revista Bloquinho, também interrompida –, um claro exemplo de como o gibi não se sustentava apenas com aventuras dos personagens-título.

A reação agressiva de Ely Barbosa – nem tanto assim, porque ele era amigo de Edmundo Rodrigues – foi um divisor de águas para a consagração da revistinha. A partir daquele momento, o título tomou um rumo diferente, mais profissional, e ganhou novo visual, concebido o ecletismo de estilos de desenho e de humor. Da fase antiga, somente a logomarca na capa foi mantida. Tudo isso capitaneado pelo estúdio que ganhou plenos poderes para tocar a publicação à sua imagem e semelhança artística.

Como Barbosa contava com uma equipe de enorme talento – entre eles, Bira Dantas –, O resultado foi um gibi à parte do universo das piadas pastelão das noites de domingo na televisão. Seguiu um caminho próprio que não dependia da imagem do programa (apesar de usar quadros como o da Trapsuat, paródia do seriado S.W.A.T., grande sucesso dos anos 1970 e que até rendeu edições especiais pela mesma editora) e conquistou os públicos jovem e adulto.

Por uma década, o gibi da Bloch – uma editora instável, com seguidos recomeços no mercado de quadrinhos – permaneceu incólume diante de fatos significativos que aconteceram com o grupo humorístico nesse período, como a oscilação de índices de audiência do programa televisivo e a separação e reconciliação dos Trapalhões.

Histórias sob a ótica de bebês, malandragens, machismo e violência (no estilo caricatural dos cartuns, vale frisar); piadas de teor sexual; brincadeiras com homossexuais e outros temas apimentados que hoje, em tempos da ditadura do politicamente correto, seriam tratados com excessiva delicadeza foram marcas registradas da revista dos Trapalhões na Bloch.

A regra era deixar o humor correr solto, qualquer que fosse o gênero. Desde que não beirasse o limite do mau gosto e da ofensa, pois o gibi também era lido por crianças e adolescentes. Além disso, os próprios humoristas ficavam de olho no que era feito com sua imagem nos quadrinhos. Conta-se que, muitas vezes, eles emitiram sugestões (à guisa de determinações) sobre o visual e características da personalidade de suas respectivas versões cartunescas.

Mas isso não impedia que a censura prévia, que imperou nos tempos da ditadura militar no Brasil, até o seu fim, em 1985, agisse contra as HQs que estavam prestes a ser publicadas em Os Trapalhões.

Bira Dantas, que trabalhou na revista entre 1980 e 1982 e no expediente assinava como Ubiratan Dantas, conta que fez o argumento e os desenhos de uma história¹ – roteirizada por Orlando Costa – em que os super-heróis resolveram entrar em greve e exigiam, dentre outros benefícios, férias remuneradas e FGTS. À frente deles estava o Homem- -Lula, referência nem um pouco sutil a Luís Inácio Lula da Silva, então líder sindical que provocava dores de cabeça nos militares.

¹ Em 2012, Bira Dantas divulgou nas redes sociais da internet as páginas originais censuradas dessa HQ.

A HQ foi alterada por ordem da editora. “As ideias nonsense surgiam mesmo dos roteiristas. Sérgio Valezin, Genival Souza e Orlando Costa tinham uma imaginação muito fértil e se divertiam criando as situações mais inusitadas, como personagens soltos no vazio das páginas.

“O próprio Ely tinha histórias completamente doidas”, lembrou Bira.

Um bom exemplo dessa loucura criativa foi uma piada rápida
de página única, na qual Didi está parado ao lado de um ponto de ônibus
e, repentinamente, surgem dois olhos com pernas e braços, que formam
uma fila atrás dele. Diante da expressão curiosa de alguém que passa por
ali e vê a estranha cena, vem a explicação infame do trapalhão: “Isso é um
ponto de vista”.

Os famosos super-heróis dos quadrinhos eram alguns dos
principais motes para piadas. Super-Ômi, Super-Véio, Nega Maravilha
(e seu grotesco poder de usar o odor das axilas para derrotar os vilões),
Frangasma, He-Gay, Batimão e Robinho – este último, comumente
afeminado – e muito mais supertipos foram alvos de diversas sátiras.

Outras criações dos gibis compareceram às páginas de Os
Trapalhões
, como Asterix, que virou Didirix, o “cearês” inimigo do
império de Brizolanus – paródia de Leonel Brizola, ex-governador do
Rio de Janeiro.

Sobrava também para as atrações da televisão. Uma delas foi
a minissérie policial Bandidos da Falange, produzida e exibida pela TV
Globo em 1983, transformada em Bandidos da Solange no gibi – não
seria surpresa alguma se fosse um trocadilho com o nome da famigerada Solange Hernandes, uma das mais famosas censoras da ditadura militar, que ainda comandava o país na época. E ainda havia espaço para alfinetarprogramas de auditório badalados, como o Cassino do Chacrinha.

Personalidades como Michael Jackson, Silvio Santos, Xuxa e diversas outras não escaparam da verve satírica da revista e foram responsáveis por momentos clássicos da publicação, iconoclasta por natureza.

Os quadrinhos dos Trapalhões não conheciam a máxima
de que política, religião e futebol não devem ser discutidos. Por suas
páginas desfilaram tiradas contra governadores de estado e presidentes
da República, passando pelo sumo pontífice da Igreja Católica, papa João
Paulo II, e não se esquecendo de cutucar qualquer clube de futebol que
calhava de estar mal das pernas no campeonato ou era rival do time de
algum roteirista.

Toda essa diversidade não se limitava aos roteiros. O estilo
de cada desenhista era respeitado e permitia ao gibi uma fuga da
padronização gráfica de quadrinhos como os da Turma da Mônica e da
Luluzinha, sucessos contemporâneos de Os Trapalhões. O model sheet
criado pelo chileno Gonzalo Cárcamo, da primeira equipe de artistas da
revista, era apenas um norte. “A gente seguia esse modelo com uma certa
liberdade”, afirmou Bira.

Graças a isso, era possível ao leitor ter o seu desenhista predileto. Pelo gibi passaram nomes fortes no cenário das HQs nacionais, como Watson Portela e o ex-quadrinista Disney Fernando Bonini. Mas era o traço inconfundível de Eduardo Vetillo o que mais chamava a atenção. Isso explica a prolífica produção do artista no tempo em que esteve na revista.

O dinamismo e o exagero visual dos desenhos de Vetillo
garantiam a comicidade das histórias ao simples passar de olhos do
leitor. Era também o artista que mais ousava na diagramação das páginas,
invariavelmente lançando mão do artifício das cenas sangradas, em que os
personagens ou o cenário não obedecem aos limites dos quadros.

Por um breve período nos anos 1980, o desenhista fez um trabalho paralelo em outro gibi da Bloch, Spectreman, adaptação do seriado japonês homônimo exibido no Brasil. Na década de 1990, Vetillo desenhou algumas HQs Disney para a Editora Abril, nas quais precisou adaptar sua arte frenética ao estilo gráfico mais comedido dos personagens
da turma de Patópolis.

Foram mais de 80 edições de Os Trapalhões publicadas até 1986 pela Bloch, em dez anos de circulação – foi o título mais longevo da editora de Adolpho Bloch, a mesma que publicava a revista semanal Manchete. Durante esse tempo, outros títulos dos personagens foram lançados e formaram uma família com almanaques, superalmanaques
e o spin-off Aventuras do Didi, título mensal que apresentava somente
histórias do trapalhão mais destacado da trupe.

Um álbum com 210 figurinhas autocolantes, lançado pela Bloch, em 1982, também fez parte dessa fase de multiplicação de títulos. Em 1987, a revista aposentou o formatinho, cresceu para o modelo americano e virou Super Trapalhões, que, em cada edição, trazia histórias sobre um único tema, a maioria envolvendo super-heróis. No rol dos clássicos está a edição de estreia, com uma sátira a Guerra nas Estrelas (Star Wars).

Na mesma época, a revista Aventuras do Didi também mudou de conceito e formato, alterando o nome para Didi: Passatempos e Quadrinhos. Ambos os gibis foram descontinuados no final daquele ano, depois de nove edições de cada título.

² Em entrevista ao autor deste livro, em 2005. Ely Barbosa faleceu
em janeiro de 2007.

Quando perguntado² sobre os motivos que levaram ao fim as HQs dos Trapalhões na editora Bloch, Ely Barbosa não soube (ou preferia não) responder com certeza. Mas especulava que os quatro humoristas tinham planos financeiramente mais ambiciosos e mais rentáveis e, por essa razão, não renovaram o licenciamento. “Na época, alegaram que as vendas estavam caindo. Mas acho que foi problema de contrato entre o Renato Aragão (o Didi) e a editora”, fez coro o veterano Bira Dantas.

De fato, Renato Aragão, ao que parece, queria expandir a marca.
E fechou com a Editora Abril, que convidou o designer Cesar Sandoval
para reformular os personagens. E em janeiro de 1988, cerca de três meses
depois de suas derradeiras edições na Bloch, Os Trapalhões ganhou uma
versão diferente: dessa vez, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias reapareceram
como crianças e de volta ao formatinho.

Publicados por uma editora de maior porte – a maior do país no
segmento de revista – e com revisão de posicionamento de mercado, os
personagens, voltados exclusivamente para o público infantil, alcançaram
sucesso na área de licenciamento e estamparam as embalagens dos mais
variados produtos de diversos segmentos do varejo, condição nunca
imaginada por sua encarnação anterior, que não gozava desse apelo.

E ainda estrelaram sua primeira e única graphic novel, Didi Volta
Para o Futuro, paródia da trilogia de cinema que marcou a década de 1980.
Na época, começou a ensaiar seu formato mais elaborado de quadrinhos,
que as marcas da editora, marcado por melhores edições impressas com melhor
qualidade e tamanho maior – a maioria dos títulos foi produzida pelas
editoras americanas de super-heróis Marvel e DC.

Os pequenos Trapalhões sobreviveram na Abril até 1994.
Dois anos depois, a Bloch ensaiou a volta dos personagens adultos em
As Aventuras do Didi, que não trazia as versões de Mussum e Zacarias –
os humoristas haviam falecido no início daquela década. Sem o mesmo
estilo gráfico e conceitual da fase áurea que consagrou o seu gibi dos
Trapalhões, a tentativa de revivê-la durou apenas três edições.

Um novo esforço de reviver os Trapalhões nas bancas de revistas,
já com o programa de TV cancelado havia mais de uma década, aconteceu
em 2002, quando a Editora Escala lançou As Aventuras do Didizinho, em
que o personagem-título e sua turma (criada com exclusividade para o gibi)
eram adolescentes. Depois de 21 números, a publicação chegou ao fim.

A Escala ainda voltava a apostar no líder dos Trapalhões em
2010, com a revista de atividades educativas O Mundo Mágico do Didi
e o gibi Didi & Lili, que trazia Renato Aragão e sua filha adolescente
em versões no estilo mangá – para pegar carona no sucesso da Turma da
Mônica adolescente, de Mauricio de Sousa, publicada pela Panini.

O título foi cancelado depois de dez edições e colocou pontos
finais à trajetória dos Trapalhões nos quadrinhos. Será?

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here