O PRESIDENTE QUE VIROU CARICATURA

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O PRESIDENTE QUE VIROU CARICATURA

O ex-capitão talvez seja o melhor exemplo de como a liturgia do cargo não transforma o ocupante da cadeira presidencial.

Durante quatro anos a presidência da República foi convertida em palanque permanente, em cercadinho improvisado, em motociatas, um reality show político com roteiros escritos entre incompetência, xingamentos e bravatas.

A mediocridade, para não dizer outra coisa, foi sua marca registrada. Atacava o Supremo Tribunal Federal pela manhã, chamava Alexandre de Moraes de “canalha” à tarde e à noite jurava respeito às instituições.

Sua gestão ficou marcada por um rosário de trapalhadas. A mais grave, sem dúvida, foi permitir a morte de mais de 700 mil brasileiros na pandemia.

Recusou vacinas, imitou pacientes com falta de ar, zombou de mortos e demorou a admitir a gravidade do vírus enquanto milhares de brasileiros lotavam UTIs.

Incentivou a violência e o uso de armas pela população civil, fomentando ódio e impulsionando o aumento da criminalidade.

Ao mesmo tempo abria espaço para os filhos agirem como se o governo fosse extensão da sala de estar. Carlos, o vereador sem mandato federal, comandava o gabinete do ódio, enquanto Eduardo e Flávio orbitavam entre conchavos políticos e denúncias de rachadinha. A República familiar virou caricatura.

O arquiteto do caos também colecionou episódios que beiram a tragicomédia. No passado, deixou o Exército sob acusação de planejar explodir o sistema de água no Rio de Janeiro.

Anos depois ensaiou explodir a democracia com uma tentativa de golpe mal ensaiada, cujo roteiro foi revelado nas mensagens de seu ajudante-de-ordem.

Não comprou vacinas, mas se encantou com joias sauditas. Não passou a faixa presidencial, mas passou recibo de péssimo administrador. Não respeitou urnas, mas respeitou fake news.

A liturgia do cargo, que exige sobriedade e compromisso de estado, virou chacota nas entrevistas do cercadinho do Palácio do Alvorada, onde distribuía grosserias como quem joga milho aos pombos.

Foi o presidente que não presidia. O comandante que não comandava, o estadista que nunca existiu.

Sua obra mais consistente foi corroer a confiança nas instituições, enquanto colecionava investigações, escândalos e inimigos.

A prova mais cabal desse espírito veio na famigerada reunião ministerial de julho de 2020, quando seus ministros protagonizaram um verdadeiro show de horrores.

Em meio ao luto de milhares de famílias pela Covid-19, o então ministro do Meio-Ambiente, Ricardo Salles, pregava “passar a boiada” na legislação ambiental, aproveitando-se do caos para desmontar políticas públicas.

Jair Messias oferecia um repertório de palavrões transformando o encontro em rinha de insultos. O general Augusto Heleno, sem o menor pudor, já flertava com discursos golpistas.

As cenas, tornadas públicas meses depois, revelou de forma explícita que o governo não era um projeto de país, mas uma mistura de improviso, grosseria e ameaça permanente à democracia.

No fim, restou a ironia. Não foram os adversários políticos que lhe deram o golpe final, mas o próprio ajudante de ordem transformado em arquivo vivo das ilegalidades palacianas.

O ex-capitão saiu como entrou. O retrato que ficou é o de um governo de improvisos, marcado pela tosquice e pelo descompromisso, em que o poder se transformou em farsa.

Do Jornalista René Ruschel

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O Portal O Ralho é composto por um grupo de artistas digitais que utiliza a política como fonte de inspiração. Dado o tamanho da bizarrice a política é humor próprio e porque é, em si, uma coisa engraçada. O humor, ao contrário, é uma coisa muito séria. Provo: a política é toda feita de dribles à imprensa, de desmentidos impossíveis, de promessas jamais cumpridas, de ilusão, enfim, enquanto o humor não engana ninguém: ou é engraçado ou não é, está ali no papel em exibição pública, nu e cru. Seríssimo. Por isso, os políticos em geral são bons humoristas enquanto os humoristas sempre foram péssimos políticos. Então o Ralho traz a visão contestadora, humorística e diária da realidade…

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