“Sou capaz de apostar que a justificativa da Quest e do Datafolha será a de sempre: movimentos eleitorais que ocorrem no dia da eleição não são captáveis pelos levantamentos”
Penso que os institutos de pesquisa Datafolha e Quaest devem satisfações públicas sobre os números apresentados na noite de sábado, véspera da eleição. Peço licença ao leitor para deixar para um próximo artigo avaliações sobre a miríade de pesquisas que inundam o mercado, grande parte delas financiadas por instituições financeiras e que utilizam metodologias questionáveis do ponto de vista da confiabilidade.
Na tarde de sábado (4), cheguei em casa vindo de uma das maiores manifestações políticas que participei na vida. A caminhada com Lula na Praia de Copacabana reuniu tanta gente que lembrava o tradicional Réveillon do Rio de Janeiro. Logo passei a acompanhar as imagens impressionantes da megaevento de apoio a Lula em São Paulo, também com a presença do presidente. A multidão ocupava pelo menos 14 quarteirões da Avenida Paulista, reunindo centenas de milhares de pessoas. Para militantes experientes, se tratava o maior ato político já realizado na capital paulista.
Cresceu, então, a expectativa pela divulgação, na noite daquele sábado, das últimas pesquisas do Datafolha e da Quaest. Dois dias antes, pelo Datafolha, Lula e Flávio Bolsonaro estavam empatados numericamente nos votos válidos: 50% a 50%. Já a Quaest, na quarta-feira, apontara empate técnico, mas com o Rachadinha à frente: 51% a 49%. A expectativa era de que Lula aparecesse na liderança.
Qual não foi a minha surpresa quando ambos os levantamentos coincidiram em registrar 51% a 49% para Flávio. No caso do Datafolha, Lula oscilara um ponto para baixo e Flávio um ponto para cima. Mas, como acreditar que o maior movimento antifascista de todos os tempos no Brasil não se refletia nas pesquisas? Impulsionadas pela juventude, os atos em defesa da democracia não paravam de crescer em proporções geométricas nos quatro cantos do país.
Essas pessoas não têm parentes, amigos e vizinhos a quem influenciar na definição do voto em Lula?
Estranho, muito estranho.

Ato contínuo à divulgação de sua pesquisa, o diretor executivo da Quaest, Felipe Nunes, como de hábito, foi para os estúdios da GloboNews explicar seus resultados. Disse que a campanha de Lula patinava em dois aspectos que poderiam levá-la à derrota: o não crescimento da vantagem no Nordeste, onde Lula já obtivera 70% em eleições anteriores, mas que agora não passava de 62%, e o nível de abstenção que teimava em não ceder. Teve comentarista da GloboNews afirmando que aquela pesquisa era “uma ducha de água fria nos militantes petistas.”
As urnas no dia seguinte, no entanto, revelaram uma realidade bem diferente: Lula beirou os 70% dos votos no Nordeste e a abstenção teve queda significativa. E por que a vitória e a diferença pró-Lula no dia da eleição não foram captadas por esses institutos?
Sou capaz de apostar que a justificativa da Quest e do Datafolha será a de sempre: movimentos eleitorais que ocorrem no dia da eleição não são captáveis pelos levantamentos.
Ora, mas essa onda de crescimento de Lula já era visível na sociedade nos dias das entrevistas dessas pesquisas (sexta e sábado). Na tarde de sábado, o jornalista Renato Rovai, diretor da Revista Fórum, alertava que as pesquisas da noite não colocariam Lula na frente porque os institutos trabalhavam com a convicção de que Flávio venceria e temiam represálias por parte do filho do golpista-mor.
Boa reflexão, mas acrescento que não pode ser descartada a manipulação política pura e simples dessas pesquisas, que sempre tentam se proteger com o escudo da margem de erro.
Só que Lula venceu fora da margem de erro.



















