Parem de sofrer pela Seleção
“Neymar fracassou e ajudou a levar o time ao desastre por ter sido tratado pela CBF e pela Globo como a nossa cloroquina na Copa”, escreve Moisés Mendes
Bolsonaro seria consagrado como o curandeiro do mundo se a cloroquina tivesse dado certo como milagre contra a Covid. O debate em torno da cloroquina na pandemia foi politizado pela extrema direita.
Bolsonaro teria fama mundial, muita gente ganharia dinheiro com o milagre e o povo seria submetido à imposição do santo milagreiro. Deu tudo errado. Bolsonaro e os vampiros da cloroquina, das vacinas superfaturadas e do negacionismo ajudaram a matar 700 mil pessoas.
A cloroquina e seus disseminadores, entre os quais governadores, só atrapalharam o combate à pandemia. Porque o objetivo era criar uma expectativa anormal para uma solução sem comprovação, mas de interesse do bolsonarismo.
O Neymar-cloroquina acabou com os sonhos de bolsonaristas e não bolsonaristas ao ser levado para a Copa como milagreiro, porque não poderia perder mais de R$ 50 milhões dos patrocinadores. E porque, se desse certo, seria eternizado como o craque do imponderável, um Maradona verde-amarelo do fascismo.
Mesmo que fizesse apenas um gol, um só, mas decisivo, seria santificado. Marcou um gol de pênalti que não valeu nada. A Copa exigia muito milagre para pouco santo. Mas fica irrelevante repetir agora, por excesso de obviedade, que Neymar foi o bolsonarismo na Copa.
Ele sintetizou tudo o que uma Seleção foi como expressão de desorganização, alienação e engajamento a condutas reacionárias. Com poucas exceções, e Vinicius Júnior talvez seja a mais importante delas por seu combate ao racismo, o resto era, como já disseram, mais influencer do que jogador de futebol.
Fracos como grupo de fato coletivo, sem coesão tática, frágeis como homens em campo. Tão frágeis e tão acovardados que foram dominados não pela França ou pela Espanha, mas por um time de noruegueses. É como se, numa situação inversa, o Brasil pudesse, num concurso em Oslo, apresentar o melhor bacalhau.
Com Neymar como ilusão e Ancelotti à beira do campo de gravata, cumpriu-se a aposta barbada de qualquer bet. Neymar não poderia ser um novo Ronaldo Nazário, e Ancelotti não deveria, engravatado, liderar a configuração de uma ideia de Seleção Brasileira que já teve Zagallo naquela posição.
O técnico do Brasil não pode usar gravata, nem na Seleção de esgrima nos Jogos de Inverno. Tem que tentar ser parecido com o Brasil, e não com a Europa, como ensina o pensador gaúcho das coisas do futebol Antonio Vicente Martins, segundo o qual um time tem camiseta, cor, índole e também ideologia.
O técnico da Seleção não pode passar a mensagem errada e usar colete no verão americano. Não pode acompanhar o jogo com os braços cruzados, como quem contempla o que acontece à revelia das suas interferências.
Um técnico italiano não pode, ao sugerir que copia o futebol da sua Europa, ver seu time não fazer nada do que os europeus sempre fizeram. E com Neymar no banco, como se tivesse levado, contra a sua vontade, o desestabilizador de tudo o que pudesse ter sido planejado.
E assim chegamos ao fim da era Neymar, que não terá chance parecida com a era Dunga, reabilitada pouco tempo depois do fracasso do futebol tosco de 1990. Neymar e tudo o que ele representa estão, por requisição apresentada pelo bolsonarismo, na conta da extrema direita.
Neymar é problema de Flávio Bolsonaro, da Globo, dos tios do zap que o consideravam um craque para momentos históricos e dos golpistas frustrados que o enxergavam como compensação para seus fracassos políticos.
A conversa sobre a Seleção como identidade da pátria de chuteiras, construída a partir de 1958, já é pauta vencida. Não há time, não há identidade, não há nada que conecte o país à sua Seleção.
Transformar esse assunto em controvérsia é apenas tergiversar em torno do que já sabemos. A Seleção brasileira aprofundou sua insignificância e é hoje patrimônio do bolsonarismo.
Não vale a pena lutar pelo resgate do que já é deles. O nosso futebol é tão comum e tão falso quanto um jundiá salgado do rio Guaíba, muito vendido como bacalhau norueguês no Mercado Público, nos anos 70, como contava Paulo Romualdo Pacheco, o Pachecão, o filósofo de Belém Novo, no sul profundo de Porto Alegre.
















