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Excluído, Kassab exagera favoritismo de Lula para derreter Flávio e emplacar Caiado

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Excluído, Kassab exagera favoritismo de Lula para derreter Flávio e emplacar Caiado

Quanto mais frágil parecer a candidatura de Flávio, maior é o espaço potencial para Caiado se apresentar como alternativa dentro do campo da direita

A declaração de Gilberto Kassab de que o Centrão está com Lula e de que Flávio Bolsonaro não teria chance de vencer a eleição é importante, mas precisa ser lida com alguma cautela. Não porque seja irrelevante, mas justamente porque revela como está funcionando seu cálculo político, para 2026: as forças de centro tendem a se aproximar de quem consideram mais competitivo, mas isso não significa uma adesão nacional, uniforme e definitiva à candidatura do presidente.

Kassab falou como presidente do PSD e, sobretudo, como candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado. Falou também como ex-secretário de Tarcísio, que foi obrigado a excluí-lo. Portanto, sua declaração também deve ser entendida como parte da estratégia eleitoral da própria chapa. Ao dizer que o Centrão está com Lula e que Flávio Bolsonaro “vai desabar”, Kassab procura produzir um fato político: apresentar Lula como o candidato em torno do qual as forças pragmáticas do sistema político já estariam se organizando.

Há, porém, uma diferença importante entre a direção geral desse movimento e sua tradução concreta nos estados. O Centrão não é um bloco homogêneo. União Brasil, PP, Republicanos, PSD e MDB possuem interesses regionais, alianças estaduais e disputas locais que frequentemente se sobrepõem às estratégias nacionais. A própria situação atual mostra isso. Lideranças dessas legendas podem apoiar Lula nacionalmente e, ao mesmo tempo, manter acordos ou preferências diferentes nas eleições para governador e senador.

Ainda assim, a fala de Kassab tem peso. Na política brasileira, alianças também são construídas a partir da percepção de quem tem maior possibilidade de vitória. Quando dirigentes partidários começam a admitir que determinado candidato é o favorito ou que outro enfrenta dificuldades, não estão apenas descrevendo a realidade: estão ajudando a construí-la. O cálculo de governadores, parlamentares e dirigentes partidários passa inevitavelmente pela pergunta sobre quem estará no Palácio do Planalto a partir de 2027.

Nesse sentido, a declaração de Kassab pode ser mais relevante como sinalização do que como fotografia definitiva. Ela indica que setores importantes do centro político estão considerando Lula o polo mais seguro para suas estratégias nacionais. Pesquisas recentes ajudam a explicar esse comportamento: Lula aparece na liderança do primeiro turno, embora a disputa com Flávio permaneça competitiva e ainda distante de uma definição.

Mas existe uma segunda dimensão, talvez ainda mais evidente, na fala de Kassab. O presidente do PSD é candidato a vice de Caiado, e sua prioridade eleitoral não é simplesmente fortalecer Lula. É fortalecer Caiado.

A chapa Caiado-Kassab tenta ocupar justamente o espaço de Flávio, apresentando-se como uma alternativa de direita não subordinada ao bolsonarismo. Caiado tem feito críticas ao governo Lula, mas também procura se diferenciar de Flávio e do núcleo político ligado à família Bolsonaro.

Por isso, ao afirmar que Flávio “vai desabar” e que sua chance de vitória seria “zero”, Kassab presta um serviço direto à candidatura de Caiado. Quanto mais frágil parecer a candidatura de Flávio, maior é o espaço potencial para Caiado se apresentar como alternativa dentro do campo da direita.

É uma operação política complexa, talvez desesperada, mas compreensível. Caiado precisa retirar de Flávio uma parcela do eleitorado de direita que poderia, em um segundo momento, migrar para sua candidatura. E Kassab, como seu companheiro de chapa, procura acelerar esse processo ao questionar a viabilidade eleitoral do candidato do PL.

A declaração também funciona como uma espécie de último esforço para desgastar Flávio antes do início oficial da campanha, marcado para 16 de agosto. Kassab aposta que, quando o confronto eleitoral se intensificar, Flávio ficará mais exposto e sofrerá desgaste.

Há, portanto, uma ironia política na afirmação de que o Centrão “está com Lula”. Kassab pode estar identificando corretamente uma tendência de aproximação de setores centrais do sistema político com o presidente, mas, ao mesmo tempo, sua própria candidatura depende de convencer esse mesmo campo de que ainda existe espaço para Caiado.

O Centrão, por definição, não costuma fazer apostas sentimentais. Faz cálculos. E o cálculo mais importante neste momento parece ser o da competitividade. Se Lula permanece na frente e Flávio enfrenta dificuldades para ampliar alianças, é natural que parte das forças de centro se aproxime do presidente. Mas essa aproximação não elimina as negociações estaduais nem significa que a eleição esteja decidida.

A fala de Kassab, portanto, deve ser entendida menos como anúncio de uma adesão consolidada de todo o Centrão a Lula e mais como um importante sinal da lógica que começa a organizar a eleição: as forças políticas procuram se aproximar do candidato que consideram com maior possibilidade de vitória.

E, paradoxalmente, ao anunciar que o Centrão está com Lula, Kassab também está fazendo campanha para Caiado. Ao tentar convencer o eleitorado e as elites políticas de que Flávio é inviável, o vice de Caiado procura abrir espaço para o próprio candidato.

No fim, o Centrão poderá estar com Lula em Brasília, com Caiado em Goiás, com outro candidato em São Paulo e com uma terceira opção em algum outro estado. O que Kassab revelou, porém, é mais importante: nacionalmente, a percepção de que Lula é hoje o candidato mais competitivo já começa a influenciar o cálculo daqueles que tradicionalmente preferem estar próximos do provável vencedor.

Essa percepção, mais do que a frase de Kassab, é o verdadeiro fato político.

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