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Flávio Bolsonaro e a República à venda

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Flávio Bolsonaro e a República à venda

Isolado após o recuo de antigos aliados, o senador enfrenta novas cobranças para consolidar sua candidatura presidencial

É impressionante. A cara de pau dessa turma parece não conhecer limites. E, desta vez, a hipocrisia vem embalada numa verdadeira aula de figura de linguagem.

O partido chama-se Republicanos. Só isso já seria motivo para uma boa discussão de semântica. Afinal, trata-se de uma legenda controlada politicamente pela Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo. Ora, um dos fundamentos da República brasileira é justamente o Estado laico, que separa religião e poder político. Na gramática, isso tem nome: oxímoro, ou paradoxo, quando duas ideias incompatíveis aparecem lado a lado. Poucas definições se encaixam tão perfeitamente quanto uma igreja estar no comando de um partido chamado Republicanos.

Mas o enredo consegue ficar ainda mais indigesto.

Marcos Pereira, presidente do partido, advogado e bispo licenciado da Universal, agora faz do apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro uma espécie de leilão político.

A mensagem dos bastidores é cristalina: apoio, só mediante a promessa de uma indicação ao Supremo Tribunal Federal, na vaga que será aberta com a saída de Luiz Fux. Não se discute projeto de país, programa de governo ou compromisso com a sociedade. Negocia-se uma cadeira na mais alta Corte da República, como quem barganha cargos de segundo escalão.

É a política transformada em balcão de negócios, sem o menor constrangimento.

E há um detalhe quase cômico, não fosse tão revelador. Flávio Bolsonaro consegue a proeza de enfraquecer a própria candidatura antes mesmo de consolidá-la. Seu conhecido talento para a autossabotagem já produziu efeitos concretos: PP e União Brasil recuaram do apoio, deixando o “01” cada vez mais isolado. Agora, até os aliados parecem cobrar pedágio para permanecer ao seu lado.

No fim, sobra uma imagem desoladora. Um partido que invoca a República, enquanto se confunde com uma organização religiosa. Um dirigente que trata uma vaga no STF como ativo de negociação eleitoral. E um candidato que perde aliados na mesma velocidade com que acumula dificuldades.

Se isso ainda pode ser chamado de articulação política, então também precisamos rever o significado dessa expressão. Porque, diante de tamanho cinismo, o paradoxo já não está apenas na gramática. Está na própria política brasileira.

 

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O Ralho
O Portal O Ralho é composto por um grupo de artistas digitais que utiliza a política como fonte de inspiração. Dado o tamanho da bizarrice a política é humor próprio e porque é, em si, uma coisa engraçada. O humor, ao contrário, é uma coisa muito séria. Provo: a política é toda feita de dribles à imprensa, de desmentidos impossíveis, de promessas jamais cumpridas, de ilusão, enfim, enquanto o humor não engana ninguém: ou é engraçado ou não é, está ali no papel em exibição pública, nu e cru. Seríssimo. Por isso, os políticos em geral são bons humoristas enquanto os humoristas sempre foram péssimos políticos. Então o Ralho traz a visão contestadora, humorística e diária da realidade…

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