O Brasil será o novo Vietnã dos gângsteres da Casa Branca
“A ameaça de invasão americana nos oferece a chance de pensar que iremos vencê-los”, escreve Moisés Mendes
Além de provocar o caos no sistema financeiro, Trump pode precisar de uma ação espetacular na sua caçada a terroristas no Brasil.
Ordenaria uma invasão da Força Delta, como aconteceu na Venezuela, não aos palácios do Planalto e da Alvorada, mas a uma comunidade do Rio.As manchetes do dia seguinte, no Globo, na Folha e no Estadão, teriam mais ou menos essa formulação: Forças especiais americanas raptam chefes terroristas em ação cinematográfica de apenas cinco minutos.
Logo abaixo da manchete, informariam: Trump comemora a operação no Brasil, diz ter livrado o Rio de Janeiro dos chefões do terrorismo e anuncia outras invasões para que o Brasil viva em paz.
Uma cena improvável? Como consideravam impossível o ataque à Venezuela. Como sempre acharam que seriam inviáveis a invasão do Irã e o assassinato dos aiatolás. E como também consideram agora um delírio pensar numa ofensiva militar contra Cuba.
O improvável estará sempre na agenda de Trump como a próxima ação americana, no contexto de um mundo acovardado. São muitos os improváveis recentes. Achavam que não aconteceria, depois da reunião de sorrisos de Lula com Trump, a declaração do Departamento de Estado de que o PCC e o Comando Vermelho são organizações terroristas.
Declararam e estão prontos para atacar. Trump não atacaria a Faria Lima, onde atuam mais de 40 fintechs que trabalham na lavagem de dinheiro do PCC. Mas poderia, para transmitir aos brasileiros a certeza de que nos defende das facções terroristas, promover uma ação militar num morro do Rio.
Especialistas em ações militares já devem saber como um ataque assim se daria. Não necessariamente como se deu no Paquistão, quando eles mataram Bin Laden. Nem quando entraram em Caracas e sequestraram Maduro e a mulher dele. Seria algo pensado para o Brasil.
Procurem alguém que nos diga que essa hipótese é absurda. Peçam argumentos sobre a capacidade de defesa do Brasil e as possibilidades de fracasso da operação americana. Irão dizer tudo o que já foi dito sobre todas as invasões deles antes consideradas operacional e politicamente impossíveis.
Mas ações de cinema já devem estar sendo desenhadas, com cenários variados, dentro das forças especiais de Washington. Eduardo tem dito que os líderes do PCC e do Comando Vermelho serão caçados dentro e fora do Brasil.
Não fala especificamente em ações militares, mas cita Bin Laden. O filho escondido nos Estados Unidos sugere que tudo pode acontecer. É para o que devemos nos preparar, se as próximas pesquisas mostrarem que Flávio continua derretendo.
Se o plano de inviabilizar o funcionamento do sistema financeiro der certo. Se Trump conseguir tumultuar a circulação de dinheiro e colocar os investidores a correr. Se o Brasil passar a ser visto como um país caótico, Trump se sentirá confiante para acionar de novo o imponderável.
O Brasil é há muito tempo a terra da improbabilidade. Não haveria como golpear Dilma. Lula nunca seria encarcerado. Bolsonaro fracassaria como candidato, porque o Brasil nunca votou em figuras extremadas. Os militares continuariam recolhidos aos quartéis.
Um plano golpista liderado por Bolsonaro seria improvável. A invasão de Brasília por uma turba de manés não era algo imaginável e por isso mesmo nunca foi questionada como viável ou factível. Um presidente brasileiro jamais fugiria num avião da FAB para os Estados Unidos.
Mas o improvável vai sendo desmoralizado todos os anos pela extrema direita brasileira e, mundialmente, agora pelos desatinos de Trump. Ele pode fazer o que quiser, com a ajuda dos filhos de Bolsonaro. Mas nós podemos nos dedicar à nossa autoestima e pensar no mais improvável dos imponderáveis.
Nós poderemos ser o Vietnã do século 21. O Brasil pode, se invadido, pôr a correr as tropas americanas, que não lutam mais contra os vietcongs e a ameaça comunista e nem só pelos interesses armamentistas, mas pelas quadrilhas das bigtechs e do mercado financeiro antiPIX e pelas famílias mafiosas de Brasília e de Washington.
Lula já disse que eles só venceram a guerra do Vietnã nos filmes do Rambo. Nós podemos imaginar e nos preparar para que o Brasil seja o primeiro país a vencer o fascismo mundial em sua fase trumpista.
Imaginemos a derrota da investida contra o Brasil como algo que merecemos. O improvável está à espera das forças Delta. O Brasil pode ser o novo Vietnã dos gângsteres da Casa Branca.
Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

















